D r.   O s w a l d o   G o n ç a l v e s   C r u z

 

O túmulo dos estrangeiros. Essa foi a expressão que deu fama internacional à cidade do Rio de Janeiro na passagem do século XIX para o século XX. Entre 1897 e 1906, quatro mil imigrantes morreram de febre amarela – moléstia transmitida por mosquito em áreas urbanas e silvestres – na então capital do país.

O triste dado nos remete à época da juventude de um dos maiores nomes da história da ciência brasileira: Oswaldo Gonçalves Cruz, filho de cariocas, nasceu em 5 de agosto de 1872, em São Luís do Paraitinga, pequena cidade do interior do estado de São Paulo, e aos cinco anos, acompanhando a família no retorna ao Rio de Janeiro. Foi cientista, médico, bacteriologista, epidemiologista e sanitarista brasileiro.

Oswaldo Cruz formou-se médico na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, ingressando em 1887 e formando-se em 1892. Casou-se aos vinte anos com uma jovem de família rica. Estagiou durante três anos no Instituto Pasteur, de Paris, sendo discípulo de Émile Roux, seu diretor, em 1896 especializou-se em Bacteriologia. De volta ao Brasil, em 1899, encontrou o porto de Santos e outras cidades portuárias contaminadas por uma violenta epidemia de peste bubônica, doença que os ratos transmitem ao homem através das pulgas que os infestam, contraindo o bacilo de Yersin. Imediatamente, Oswaldo Cruz engajou-se no combate à doença. Demonstrou que a epidemia era incontrolável sem o emprego do soro adequado. Como a importação era demorada, propôs ao governo a instalação de um instituto para fabricá-lo.

Fundou em 1900, o Instituto Soroterápico Federal no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, cuja direção assumiu em 1902, que foi a base de apoio técnico–científico para Oswaldo Cruz deflagrar suas históricas campanhas de saneamento, transformado mais tarde em Instituto Oswaldo Cruz, respeitado internacionalmente.

Em 1903, o médico sanitarista foi nomeado Diretor–Geral de Saúde Pública, cargo equivalente ao atual Ministro da Saúde, por José Joaquim Seabra, Ministro da Justiça, e pelo Presidente Rodrigues Alves.

O primeiro grande adversário que Oswaldo Cruz enfrentou foi a febre amarela. Do ponto de vista da saúde pública, Oswaldo Cruz venceu a batalha: em 1907, a febre amarela foi erradicada da cidade do Rio de Janeiro, e também dirigiu a campanha de sua erradicação em Belém do Pará. Foi também o responsável pelo combate à malária na zona de construção da estrada de ferro Madeira–Mamoré, estudando as condições sanitárias no vale do Rio Amazonas.

Premiado no Congresso Internacional de Higiene e Demografia, em Berlim (1907), deixou a Saúde Pública (1909).

Além de médico, Oswaldo Cruz foi eleito em 11 de maio de 1912 para ser o segundo a ocupar a Cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Raimundo Correia e foi recebido pelo acadêmico Afrânio Peixoto em 26 de junho de 1913. Foi prefeito da cidade de Petrópolis (RJ), em 1916, neste mesmo ano, ajudou a fundar a Academia Brasileira de Ciências. Faleceu um ano depois, não tendo completado seu mandato, nessa cidade em 11 de fevereiro de 1917, com apenas 44 anos de idade. O mundo inteiro lamentou sua morte no dia, com mais de um minuto de silêncio.

 

A reforma sanitária de Oswaldo Cruz

A reforma sanitária que Oswaldo Cruz comandou no Rio de Janeiro do início do século XX foi memorável. Tal iniciativa ocorreu ao mesmo tempo em que o presidente Rodrigues Alves cumpria a promessa de campanha de remodelar a capital da República. O engenheiro Pereira Passos foi o especialista encarregado de realizar a reforma da cidade.

Enquanto Pereira Passos derrubava morros para moldar uma nova fisionomia para a capital, Oswaldo Cruz enfrentava uma verdadeira batalha para salvar a população carioca de diversas doenças graves.

Inicialmente, o médico se aproveitou da reforma urbanística de Pereira Passos, recomendando que se acabasse com as favelas nos morros da cidade. Foi o primeiro choque de Cruz com a população carente.

Já no combate à peste bubônica e à febre amarela, o sanitarista criou a Brigada Mata–Mosquitos, o que causaria nova revolta da população.

 

 

A Brigada Mata–mosquito

A Brigada Mata–Mosquitos era formada por um grupo de funcionários do Serviço Sanitário que visitava as moradias e exigia das pessoas a eliminação das poças d’água e dos recipientes que acumulavam a água da chuva, objetivando dessa forma acabar com os focos de reprodução dos mosquitos transmissores da febre amarela.

As ações desencadearam novos conflitos com a população, que dificultava a ação dos mata–mosquitos. Estes, acompanhados por policiais, constantemente forçavam a entrada nas residências.

Já no combate à peste bubônica, em virtude da imensa quantidade de roedores que infestava a cidade, Oswaldo Cruz apelou para a ajuda do povo, determinando o pagamento de um tostão para cada rato capturado e levado ao Serviço Sanitário.

Mas as epidemias não paravam de surgir. Em 1904, uma epidemia de varíola varreu o Rio de Janeiro. Depois da internação de 1.800 pessoas no Hospital São Sebastião, o governo enviou ao Congresso projeto reinstaurando a obrigatoriedade da vacinação antivariólica, recuperando a Lei de 1837, que nunca fora posta em prática. Em 31 de outubro de 1904 a Lei de Vacinação e Revacinação contra a Varíola foi aprovada.

Ao saber da aprovação da Lei, a população, junto com parlamentares e associações de trabalhadores, revoltou-se. O lema das autoridades sanitárias era: "Se não vacinar, morre!". Em contrapartida, o da população ameaçava as autoridades: "Se vacinar, mato!".

A chamada Lei de Vacinação Obrigatória previa a obrigatoriedade de atestado de imunização para candidatos a quaisquer funções públicas, para quem fosse viajar ou matricular-se em uma escola.

Os jornais lançaram violenta campanha contra a medida. Em 5 de novembro de 1904 foi criada a Liga contra a Vacina Obrigatória, por políticos de oposição ao governo.

Capa da Revista da Semana (outubro de 1904) sobre a Revolta da Vacina

Oito dias depois, os eventos conhecidos como a Revolta da Vacina tomaram corpo. Houve choques da população com a polícia, greves, barricadas, quebra-quebras, tiroteios. No dia seguinte, a Escola Militar da Praia Vermelha aderiu à revolta.

Houve um momento em que foi apontado como «inimigo do povo», nos jornais, nos discursos da Câmara e do Senado, nas caricaturas e nas modinhas de Carnaval. Houve uma revolta, tristemente célebre como a revolta do «quebra-lampeão», em que todos foram quebrados pela fúria popular, alimentada criminosamente durante meses pela demagogia de fanáticos e ignorantes.

A cidade era uma das mais sujas do mundo, pois dos boletins sanitários da época se lê que a Saúde Pública em um mês vistoriou 14.772 prédios, extinguiu 2.328 focos de larvas, limpou 2.091 calhas e telhados, 17.744 ralos e 28.200 tinas. Lavou 11.550 caixas automáticas e registos, 3.370 caixas d´água, 173 sarjetas, retirando 6.559 baldes de lixo e dos quintais de casas e terrenos 36 carroças de lixo, gastando 1.901 litros de petróleo (são dados do livro de Sales Guerra).

Como resultado dos conflitos, muitas pessoas morreram e foi decretado estado de sítio. No dia 16 de novembro, o governo sufocou a revolta, mas teve de suspender a obrigatoriedade da vacinação.

 

Homenagens

Na cidade do Rio de Janeiro, uma estação de trem, uma avenida, um bairro e diversas escolas têm o nome de Osvaldo Cruz, além do instituto soroterápico (atual Fundação), por ele fundado. Um município do estado de São Paulo também tem o seu nome, e é homenageado na capital paulista, com o logradouro Praça Oswaldo Cruz, no início da Avenida Paulista.

Em 1909, quando Carlos Chagas descobriu o protozoário causador da tripanossomíase americana (popularmente conhecida como "doença de Chagas") batizou-o com o nome de "Trypanosoma cruzi", em homenagem a Osvaldo Cruz.

Em 1913 foi fundado o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, entidade representativa dos estudantes de medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Em 1936 o sanitarista teve a sua efígie cunhada na moeda brasileira de 400 réis, e, em 1986, impressa nas notas de Cr$ 50.000,00 (cinquenta mil cruzeiros), depois transformado em Cz$ 50,00 (cinqüenta cruzados), com a reprodução do Instituto Oswaldo Cruz em seu verso. A partir de 1989, essas notas passaram a valer cinqüenta centavos de cruzados novos.

 

Em 1963, o Exército Brasileiro concedeu a denominação de “Batalhão Oswaldo Cruz” ao 1º Batalhão de Saúde, unidade expedicionária; em 1969, com a extinção do 1º BS, a 1ª Companhia de Saúde a herdou.

1ª Formação Sanitária em Valença, RJ, a qual deu origem ao Batalhão de Saúde.

Batalhão de Saúde na Itália

Fotografia: 1º Esquadrão de Cavalaria Leve - Esquadrão Tenente Amaro - Valença, RJ
(Material gentilmente enviado pelo ST Romano, Encarregado do Museu Militar Cap Pitaluga)

Fonte:
http://www.anvfeb.com.br/batalhaodesaude.htm

Em 1972 com a reestruturação da Força Terrestre e a criação das primeiras unidades logísticas, o 21º Batalhão Logístico teve a honra de receber esta denominação, e em 31 de dezembro de 2010, com sua extinção, este Hospital de Campanha do Exército herdou sua denominação, sua heráldica e seu estandarte – Hospital Oswaldo Cruz.

 

 Em 1983, a Marinha do Brasil homenageou-o com o NAsH Oswaldo Cruz (U-18), que opera nos rios da Amazônia a partir da cidade de Manaus.

 

Em 2001, Bruno Giordano fez o papel de Osvaldo Cruz em Sonhos Tropicais, de André Sturm e em 2003, Marcos Palmeira interpretou o sanitarista no curta metragem de Silvio Tendler: Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil.

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Sobre o Oswaldo Cruz, leia também:

Sonhos Tropicais, de Moacyr Seliar, romance onde retrata sua vida.

Revolta da Vacina, de José Carlos Sebe Bom Meihy e Claudio Bertolli Filho, o livro traça um panorama da época e dos problemas que envolveram a ação do sanitarista.

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Fontes consultadas (09:30h 19 jan 2011):   Revolta da Vacina, de José Carlos Sebe Bom Meihy e Claudio Bertolli Filho. São Paulo, Ática, 1995.
                                                                           http://www.fiocruz.br

                                                                           http://pt.wikipedia.org/wiki/Oswaldo_Cruz

                                                                           http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/secoes/biografias.aspx?cod=127